Por: Allyson Barbosa
O Rio Grande do Norte vive hoje uma dualidade que beira o surrealismo. De um lado, o Diário Oficial do Estado estampa o prolongamento de decretos de emergência que atingem a quase totalidade dos nossos municípios; do outro, as prefeituras correm contra o tempo para montar palcos e contratar bandas de axé. O sertanejo, que hoje olha para o céu em busca de nuvens, verá em fevereiro o brilho dos holofotes pagos com recursos públicos.
O Mapa do Colapso Hídrico
Atualmente, o Governo do Estado mantém municípios sob decreto de emergência devido à seca severa. No Seridó e no Alto Oeste, a situação é dramática. Cidades como São João do Sabugi, Serra Negra do Norte, Acari, Currais Novos e Pau dos Ferros enfrentam um rodízio rigoroso ou dependência total de carros-pipa.
A lista de cidades em situação crítica inclui nomes como:
- Região Seridó: Caicó, Jucurutu, Cruzeta e Jardim do Seridó.
- Alto Oeste: Luiz Gomes, Alexandria, Patu e Umarizal.
- Região Central: Lajes, Angicos e Pedro Avelino.
Nessas localidades, a “obra origami” (aquela que só existe no papel) não mata a sede. A água na torneira virou artigo de luxo, e os reservatórios operam em nível de volume morto.
O Contraponto: O Show Não Pode Parar?
A grande polêmica de 2026 reside no fato de que, mesmo sob decreto de calamidade ou emergência, muitas dessas cidades confirmaram festas de Carnaval com gastos vultosos.
Cidades como Caicó, que possui um dos maiores carnavais do estado, e polos como Apodi e Macau, preparam programações extensas. A justificativa das prefeituras é sempre a mesma: a economia local precisa do giro financeiro que o turismo de eventos proporciona.
No entanto, a pergunta que o cidadão faz na fila do chafariz é legítima: como há dinheiro para o cachê da banda nacional, mas falta para o óleo diesel do caminhão-pipa ou para a manutenção das adutoras?
A Conta que não Fecha
Enquanto a governadora Fátima Bezerra assina ordens de serviço para obras que demoram anos para sair do papel, o dinheiro do contribuinte escorre pelos dedos em contratos de eventos de quatro dias. Celebrar a cultura é fundamental, mas fazer festa com sede é, no mínimo, incoerente.
Em 2026, o Carnaval do RN corre o risco de ser lembrado não pela alegria, mas pela poeira que o folião vai levantar em cidades onde não há água sequer para o consumo básico. É preciso decidir se o foco da gestão é o bem-estar do povo ou o engajamento das redes sociais durante o reinado de Momo.
