Por Allyson Barbosa
O Carnaval está batendo à porta, mas para muitos prefeitos do Nordeste, a música que toca nos bastidores é de desespero. De um lado, o Rio Grande do Norte lidera o ranking de emergência no Nordeste, com 131 municípios (como Caicó e Pau dos Ferros) sufocados pela seca. Do outro, uma inflação de cachês artísticos que parece não ter teto e ameaça quebrar as prefeituras.
A pergunta que fica é: como justificar festas milionárias quando falta o básico para o cidadão?
O “Assalto” dos Cachês Abusivos
No Ceará, a revolta dos gestores transbordou. Prefeitos relatam que se tornaram “reféns” de produtoras musicais. O presidente da Aprece, Joacy Júnior, e prefeitos como Flávio Filho (Amontada), denunciam saltos absurdos: artistas que custavam R$ 300 mil agora pedem R$ 500 mil. Atrações de R$ 1 milhão pularam para R$ 1,5 milhão.
Essa elevação acontece no pior momento possível:
- Queda na Arrecadação: Mudanças no Imposto de Renda e o impacto do novo salário mínimo reduziram o que sobra no caixa.
- Crise Hídrica: No RN, municípios que planejam grandes carnavais (como os do Seridó) estão com decretos de emergência ativos. É a contradição de contratar um show de milhões enquanto o caminhão-pipa não dá conta da demanda.
A Reação dos Municípios: O “Basta” Coletivo
Pela primeira vez, os prefeitos estão se unindo para dizer “não”. A ideia é criar um instrumento jurídico que estabeleça limites e parâmetros para essas contratações. Não se trata de acabar com a cultura ou com o Carnaval, mas de garantir que o show não tire o dinheiro do hospital, da escola ou do poço artesiano.
Renan Guedes, prefeito de Catarina (CE), foi cirúrgico: é preciso transparência entre os próprios governantes. Se um prefeito aceita pagar um valor inflacionado, ele “queima” o orçamento de todos os vizinhos, que passam a ser pressionados pela opinião pública a fazer o mesmo.
Prioridade é Palavra de Ordem
Festa gera turismo e movimenta a economia? Sim. Mas até que ponto o luxo de um palco compensa o luto de uma economia rural destruída pela seca? Em 2026, o gestor que não souber equilibrar o “pão e circo” com a realidade fiscal vai sentir o peso da cobrança — seja dos órgãos de controle, seja nas urnas.
O Nordeste precisa de alegria, mas precisa, acima de tudo, de respeito com o dinheiro público.
